TRABALHO OU FELICIDADE?

Atualizado: 21 de out. de 2021

Luciana Priosta

Analista Transacional Certificada para a área Organizacional


Todos os dias pessoas pelo mundo todo acordam pela manhã e vão para o trabalho em busca de resultados: tirar mais peixes do rio do que ontem, conseguir vender mais camisetas que a semana passada, melhorar a produtividade da linha de produção em 2022. Muitas técnicas e ferramentas podem ser utilizadas para se alcançar esse objetivo. E tudo pode simplesmente falhar.

Técnicas e ferramentas são excelentes meios para se alcançar resultados, mas não dão conta de influenciar uma variável importante da equação: a felicidade das pessoas. E felicidade e trabalho não só combinam como geram resultados reais. Um estudo conduzido pelo professor Alexandre Gracioso em 2015, concluiu que empresas que constam simultaneamente nas “Maiores e Melhores” e nas “100 Melhores para se trabalhar” têm retorno sobre patrimônio 4% maior do que aquelas que aparecem apenas na primeira lista.

O Great Pleace to Work, umas das mais renomadas instituições que realizam a medição da satisfação de profissionais em grandes empresas, define como um excelente ambiente de trabalho: um lugar em que as pessoas confiam nas pessoas para quem trabalham, sentem orgulho do que fazem, e apreciam seus colegas. Essa definição tem por trás a ideia de que as pessoas são felizes quando se relacionam bem com seus gestores, com a empresa e com seus colegas. Se um excelente ambiente de trabalho está ligado à qualidade das relações, é preciso pensar no engajamento do ser humano por completo, razão e emoção.

Vamos entender melhor essa "tal felicidade"?

Assim como o meio e outros fatores “desviam” o desenvolvimento do plano biológico previamente estabelecido, o mesmo acontece com nosso desenvolvimento comportamental. Nossa personalidade e nosso repertório de sentimentos, pensamentos e ações se formam enquanto interagimos com nosso meio. Assumimos diferentes papéis em nossa vida pessoal, social e profissional e demonstramos isso não apenas nos comportando de formas diferentes conforme os interlocutores e o contexto, mas também por meio das roupas que vestimos, a maneira como nos expressamos, as decisões que tomamos. E tudo certo pois, se tudo caminhar bem, equilibramos isso com quem somos de verdade, como indivíduos que reconhecemos em nós mesmos a partir de nossas experiências. Isso pode ser chamado de felicidade.

Mas e o trabalho? Aqui na AT PONTO COM, somos fãs do dicionário. Lá encontramos que o termo trabalho é originário do latim tripalium, e designa instrumento de tortura.

Pausa dramática.

"Como assim instrumento de tortura, Luciana?" Você podem perguntar espantados. "Assim fica difícil imaginar que podemos ser felizes no trabalho." As palavras carregam em si toda a força de uma cultura e nesse caso, trabalhar era algo relegado à escravos, não-cidadãos de Roma. Vem dessa época a origem da palavra. Trabalhar era considerado uma humilhação, uma verdadeira tortura para os Romanos que se utilizavam de escravos para isso. Mas, o Império Romano caiu faz tempo hein? Pois é, então, não precisa mais, em absoluto, ser assim hoje em dia. Nossas experiências e a maneira como lidamos com elas podem mudar essa percepção, que de tão arraigada, está até na origem da palavra. E ações de Desenvolvimento Humano e Organizacional podem dar uma grande ajuda nessa mudança nas organizações.

Gestores e a área de Gestão de Pessoas precisam pensar que pessoas autônomas são perfeitamente capazes de escolher elas mesmas, de forma consciente, a felicidade no trabalho. Basta que lhes ofereça ambiente propício para isso. A Análise Transacional parte do princípio de que nascemos perfeitamente capazes de fazer escolhas que supram nossas necessidades e nos encaminhe para o sucesso. Isso é autonomia e pode ser alcançada em um ambiente que valorize a consciência, a espontaneidade e a intimidade.

Para estimular a tomada de consciência das pessoas é necessário reconhecer a importância de cada um nos processos e resultados. Isso incluí planos de comunicação e preparação das lideranças para serem agentes dessa comunicação, o desenvolvimento das equipes em sua capacidade de tomar suas próprias decisões, programas de reconhecimento simples e diretos, treinamento em ferramentas para tomada de decisão e encarar erros como oportunidade de aprendizado.

Embora a palavra intimidade não seja considerada "adequada" num ambiente organizacional, a AT a emprega para descrever o quanto as pessoas em uma organização são capazes de estabelecer relações positivas e de confiança entre si onde predominem a assertividade, a expressão de sentimentos e a troca construtiva de feedback como fonte de aprendizado. Isso para a Análise Transacional chama-se intimidade e pode ser conseguida por meio de investimento em Programas de Desenvolvimento Interpessoal, onde as pessoas são levadas a perceberem o impacto de seus comportamentos no outro e no ambiente e são convidadas à mudar, tornando-se mais capazes de lidar com conflitos e buscar soluções conjuntas para os problemas.

E por fim, a espontaneidade, ou, a liberdade de escolher entre várias possibilidades de comportamentos, aquela mais adequada para o momento. E a palavra chave aqui é escolha. Há espaço em sua organização para sair da curva? Errar e aprender? As lideranças estão preparadas para de fato liderar e inspirar as pessoas no lugar de mandar?

A promoção da consciência, da intimidade e da espontaneidade, assim como enxerga a AT, é o caminho para um ambiente que promova a felicidade das pessoas, pois permite que elas se reconectem com sua natureza e potenciais essenciais para a felicidade. Sabemos que essas não são ações de resultado em curto prazo, mas o desenvolvimento humano também não é. E nem pretendemos esgotar aqui as opções para mudança uma vez que elas são tão vastas quanto são os comportamentos das pessoas e as culturas organizacionais, mas preocupar-se com a felicidade no ambiente de trabalho e agir pautado por essa questão, trará resultados tão consistentes que dificilmente haverá retrocesso.

E voltamos a pergunta inicial: trabalho ou felicidade? Eu quero os dois! E sua organização?



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